terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Música, identidade e ativismo: a música nos protestos de rua no Rio de Janeiro (2013-2015) PARTE 1

Postarei aqui no blog partes do artigo que escrevi recentemente para a revista Vortéx, como titulo "
Música,identidade e ativismo: a música nos protestos de rua no Rio deJaneiro (2013-2015)". O artigo foi escrito para o Dossiê "Som e/ou Música, Violência e Resistência" fazendo parte da revista de número 2, volume 3 publicada no final de 2015. Resolvi copiar alguns trechos do artigo, que talvez possam chamar mais a atenção dos leitores e dividir em algumas partes afim de tornar a leitura mais fácil dado o tamanho do artigo (cerca de 20 páginas). Aos leitores mais vorazes disponibilizo o artigo na integra no link acima já citado.
Foto: Breno Crispino

Pretendemos analisar a participação de músicos ativistas nas manifestações políticas de rua ocorridas entre 2013-2015, especialmente na cidade do Rio de Janeiro. A análise parte da busca por compreender o que motivou esses músicos a participarem dos protestos de rua. Além disso, se verifica o processo de adaptação e criação desses grupos no conjunto dos movimentos sociais, quais os desdobramentos dessa prática e até que ponto ela foi efetiva para uma nova forma de fazer política nas ruas do Rio de Janeiro. Dentre os desdobramentos da participação desses músicos, temos o surgimento da frente artística, o “Bonde”, frente destinada a agrupar os blocos, grupos artísticos e ativistas que compartilhavam convicções e ideologias similares às reivindicadas nas manifestações.



Introdução
Em junho de 2013 eclodiram nas ruas do Rio de Janeiro diversas manifestações políticas que se estenderam por aquele ano e ainda ganharam força nos anos seguintes. Analisar as manifestações de 2013 não é uma tarefa fácil, tendo em vista a pluralidade de reivindicações e a diversidade de identidades presentes.
Muitas vezes as manifestações foram desacreditadas, alguns diziam que não passava de uma “tempestade” que chegou, abalou e foi embora. Outros disseram: “O Gigante acordou, rosnou, virou pro lado e dormiu de novo”1. O fato é que pessoas se reuniram e foram às ruas requerer o atendimento às suas reivindicações. Mas, por que diferentes pessoas se reuniram, se identificaram com os temas abordados nos protestos e produziram música nesse ambiente? Que tipo de legado as músicas inseridas nas atividades políticas de rua poderiam deixar para os anos seguintes, para as futuras manifestações? Essas perguntas motivam as reflexões desse texto.

  
As identidades dos músicos nos protestos políticos
Para entendermos os músicos envolvidos nas manifestações primeiro precisamos compreender os conceitos de identidade utilizados nesse artigo. A identidade é o que nos liga à estrutura, ela é formada através da interação entre o indivíduo e a sociedade em que vive, na qual interage com outros indivíduos. Devemos entender que a identidade “estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.” (HALL, 2014, p.11). Essa identidade não será estável nem única, mas estará em constante formação. Dessa forma nossa identidade está fragmentada e muitas vezes é formada inconscientemente.
Segundo Stuart Hall (2014), a identidade poderá passar por alguns processos de descentração. Um desses processos será o dos grupos de “novos movimentos sociais”, que surgiram após 1960, dentre eles podemos citar o movimento feminista, as revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas, as lutas pelos direitos civis e os movimentos revolucionários do “terceiro mundo” (p.27).
Não nascemos com identidades prontas, elas são formadas e transformadas através dos processos de representações culturais. Dentro dessas representações o espaço-tempo será remodelado trazendo efeitos sobre a forma das identidades. O espaço precisa ser concretizado e sentido; cada sociedade tem sua forma particular de lidar com esses espaços, ordenando de forma diferente um conjunto de vivências sociais que será lembrada como parcela de seu patrimônio.
Cada sociedade tem uma gramática de espaços e temporalidades para poder existir enquanto um todo articulado e isso depende fundamentalmente de atividades que se ordenem também em oposições diferenciadas, permitindo lembranças ou memórias diferentes em qualidade, sensibilidade e forma de organização (DAMATTA, 1987, p.39).
As praças são o foco das manifestações políticas, onde se desenvolvem uma relação estrutural entre os manifestantes. Alguns manifestantes gritam mensagens para uma multidão, esses serão os gritos de ordem, sugerido pelos “puxadores2”.
As praças (…) servem também como ponto de encontro entre alguém que interpreta (ou inventa) uma mensagem a multidão que a recebe e cristaliza num drama que sugere ser a sociedade algo inventado pelo indivíduo que, nestes momentos, passa sua verdade para a massa. (p.47)
Foto: Breno Crispino

A praça foi eleita o ponto de encontro entre aqueles que interpretam a mensagem e a multidão que recebe essa mensagem, a praça também sedia o encontro entre as diferentes identidades.
Podemos observar que os protestos atuais possuem uma diferença em relação ao uso da praça: ela será o ponto de encontro e o ponto de chegada, pois em grande parte das vezes o protesto será móvel. Por exemplo, podemos citar as manifestações dos professores ocorrida no Rio de Janeiro, 2013. O ponto de encontro dos manifestantes era a praça em frente à Igreja da Candelária. Daquele ponto, os manifestantes caminhavam pela Avenida Rio Branco e culminavam o protesto na Cinelândia, ocupando as escadarias da Câmara Municipal da cidade3.
Pensaremos agora sobre as identidades que foram assumidas pelos músicos nos protestos de rua. Em 2013 observamos que os protestos poderiam ser formados por dois tipos de organizações musicais: “músicos solitários” ou “grupo musical”. Os solitários poderiam se inserir a qualquer momento em um grupo, desde que houvesse abertura para a sua interação com os outros. Com isso, podemos ainda pensar na confluência de outra identidade: o ativista músico. Este seria o ativista que não se considera músico, mas que utiliza o instrumento como forma de fazer protesto. A fala do ativista Gabriel Souza Bastos, participante do bloco de protesto “Nada deve parecer impossível de mudar” apelidado de “Blocato do Nada”, é singular nesse sentido: “Na verdade, eu sou mais militante do que músico, estou no bloco antes pela militância do que pela música” (Entrevista realizada pelo autor, 2014). Embora ambos possam ser considerados diferentes quanto ao foco inicial, participam juntos tocando a mesma música nas manifestações.
No dia 20 de junho um trombonista relatou: “Eu vi que tinha uma galera com os metais, bateria e essas coisas! E então resolvi trazer o meu trombone também.” (Entrevista realizada pelo autor, 2013). Músicos que iam para as manifestações com seus instrumentos musicais acabavam por influenciar outros a reproduzir a prática e aqueles que eram influenciados se identificavam com o ato de fazer música no protesto. Essas identidades podem ser adquiridas, reconhecidas ou descobertas através de alguns mecanismos que levem o manifestante a se identificar com uma causa, algo que o faça tomar as ruas em um protesto político. Nesse caso é interessante observar a aplicabilidade da teoria da inteligência afetiva, que poderia explicar um motivador inicial para a descoberta de tais identidades.

 
Foto: Breno Crispino

O texto continua na segunda parte (que ainda será publicada) aos interessados leiam todo o artigo aqui.http://www.revistavortex.com/martins_v3_n2.pdf
1Título da matéria de Bruno Krasnoyev na coluna do R7 (KRASNOYEV, 2013).
2Tomo emprestado o termo “puxador” dos samba enredo, na qual também são conhecidos como intérpretes de samba-enredo. Chamo de “puxadores” aqueles que inventam um grito de ordem, iniciam o “microfone humano” ou fazem o jogral, fazendo um grito de ordem que é repetido pela multidão a sua volta. Em 2013 o “puxador” criava um grito de ordem a multidão poderia aprovar ou não seu conteúdo, se o grito fosse aprovado as pessoas repetiriam em coro o mesmo conteúdo, se rejeitassem poderiam ignorá-la ou até vaiá-la. No decorrer dos anos, os coletivos organizados determinariam melhor seus gritos de ordem e seus “puxadores”.
3A Cinelândia é um dos locais mais frequentados nos protestos do Rio de Janeiro, devido a seu passado histórico, em especial o triste episódio com o assassinato do Estudante Edson Luis, em 1968.







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