sábado, 22 de março de 2014

15x Guerra Peixe


A indagação partiu de Hudson Lima, Violoncelista carioca que escreveu no seu facebook: “Por que uma Orquestra genuinamente Brasileira faz uma série cujo título é "15x Áustria" ?! No ano Guerra-Peixe...”. Bem ele estava falando do evento 15x Áustria, que comemora os 200 anos da chegada da imperatriz Maria Leopoldina ao Brasil, promete dar 15 dias de música europeia entre os dias 22 de março e 5 de abril, além de exposição e filmes, ou seja, um programa completíssimo da melhor qualidade, mas que não faz calar a pergunta de Hudson: e César Guerra Peixe? Compositor brasileiro que faz 100 anos em 2014? Homem importantíssimo para a música brasileira e mesmo para o entendimento da música popular urbana, principalmente no nordeste brasileiro? A questão não só questiona onde está Guerra Peixe, mas também pergunta: Por que ainda damos tanta importância ao que vem de fora dentro da música de concerto? Como bem frisou Rafael Fonseca em sua coluna:
César Guerra-Peixe



“Tudo bem reverenciar Haydn, Mozart, Schubert, afinal Viena foi mesmo a capital mais musical da história. Mas a ausência de homenagem ao nosso César Guerra-Peixe, cujo centenário deveria estar sendo comemorado com uma série só dele, é mesmo a constatação de que só se gosta do que vem de fora.” (FONSECA, 2014)




Um pouco de história para relembrar
Familia Real
            Vamos relembrar os primeiros passos do Eurocentrismo no Brasil, pois se engana que pensa que essa mania de imitar a música europeia, forma de vestir e mesmo rituais dentro de um concerto são novos.  O eurocentrismo veio de navio já com a vinda da família Real. Criava-se a hierarquia, acentuava-se as diferenças gerando subliminarmente a oposição entre superioridade e inferioridade (MONTEIRO, 2008, p.68-69)
            O choque de cultura logo se fez presente e o que era subliminar passou a ser uma imposição, com direito a manuais. Consideravam o povo como rústico e mesmo bárbaro. Músicos vindos de fora do Brasil buscaram ajudar a implantar a concepção de “bom gosto” europeu! Esses seriam os pioneiros da implantação do eurocentrismo, que com o tempo só iria tomar mais proporção.

E a música chamada clássica?          
            Quais foram os caminhos tomados por essa música em todo o mundo? Tenho de citar as reflexões de Eric Hobsbawm, que mesmo não sendo um musicólogo conceituado, foi um dos autores que melhor vi falar sobre a realidade da música na atualidade, e ele faz observações duras sobre a música clássica:
Orquestra Sinfônica Brasileira
“A música clássica, basicamente, vive de um repertório morto. Das cerca de sessenta óperas encenadas na Ópera de Viena em 1996-97, só uma era de compositor nascido no século XX, e a situação não é muito melhor nas salas de concerto. [...] enquanto o repertório continuar congelado no tempo, nem mesmo a imensa audiência de ouvintes indiretos poderá salvar o negócio da música clássica” (HOBSBAWM, 2013k, p.32-33)
            Hobsbawm fala da situação do conservadorismo presente dentro da música de concerto no mundo inteiro, na qual não é errado tocar um repertório antigo, mas se torna problemático quando existe a insistência em se tocar apenas música antiga! Aos poucos a música de concerto vai se auto sufocando até definhar e não dá espaço a compositores do século XX, menos ainda aos nacionais.

Agora vamos analisar a situação no Brasil, que sofreu tanta influência externa, de uma família Real que impôs uma etiqueta, que sofreu influência de música de todo o tipo (incluo a música americana principalmente pós segunda guerra mundial), que me faz ainda hoje ter alunos com apenas 13 anos de idade, dizerem que não gostam de nenhum tipo de música que seja brasileira, e a odeiam sem ao menos conhecer, apenas pelo fato de acharem que o que vem de fora é melhor. Por qual razão não podemos quebrar essa constante influência imposta e forçada em todos os estilos, que está empregnada até nos mais jovens que não viveram diretamente as forças da influência direta, por que colaborar com isso?

Guerra Peixe não é um simples compositor brasileiro, mas um daqueles que fez diferença na concepção da música nacional, um compositor que sacou sobre apropriações, ressignificações e circularidade cultural quando Chartier e Ginzburg ainda usavam fraldas! Será que um compositor desse porte não merece uma homenagem a altura da Dona Leopoldina e seus músicos europeus? E quando questiono o repertório das orquestras, não quero dizer que não possam tocar músicas antigas! Sim, eles podem e devem! Mas porquê a música contemporânea e compositores brasileiros  não podem ser também agraciados em uma sala de concerto, com mais freqüência, e mais ênfase que lhes é merecida?

Conclusão

            Não duvido da capacidade de uma orquestra como a Sinfônica Brasileira, posso apontar a homenagem que fizeram aos 150 anos de Ernesto Nazareth, embora não tenha sido algo grandioso (outro compositor que merecia), mas pelo menos foi algo! E quem sabe a orquestra não tenha algo preparado? Ou mesmo resolva fazer algo depois dessas criticas? Assim esperamos! Pois dia 18 de março foi a data de aniversário de Guerra Peixe e não vi nenhuma homenagem ao mesmo! 

Eventos são preparados com antecedência, e não acredito apenas que a data tenha sido esquecida, mas tenha sido esquecida de propósito! 
É pertinente a primeira indagação do Hudson Lima, que nos fez pensar por várias questões e problemas antigos, como a velha construção do gosto, a imposição de um eurocentrismo musical forçado no repertório das orquestras brasileiras, que cercadas de conservadorismo, buscam tocar sempre o mesmo repertório europeu. Sempre critiquei isso dentro do convívio com músicos de orquestra, existe uma parcela desses que tenta vestir a idéia de um ser europeu que nasceu em terras erradas, talvez sejam pobres criaturas contaminadas pelo ambiente em que vivem. Questões que deveriam ser mais debatidas, com mais coerência e menos romantismo.

E lembrem-se:  Não se trata de repudiar a música de concerto e seu repertório antigo, mas dar espaço ao novo e ao que temos de nossa cultural nacional também.

Links

Site do Rafael Fonseca
www.rafaelfonseca.org 
Bibliografia
MONTEIRO, Maurício. A construção do gosto: música e sociedade na Corte do Rio de Janeiro 1808-1821.São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
HOBSBAWM, Eric. Tempos Fraturados. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

2 comentários:

  1. Muito obrigado pela citação e parabéns pelo excelente blog! Deixo aqui o meu: www.rafaelfonseca.org Abraços sinfônicos!

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    1. Ficamos lisonjeados com sua visita Rafael, vou atualizar a postagem com seu site

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